Observatório da Qualidade no Audiovisual

Jornalistas Livres

Nas plataformas do YouTube e Facebook desde 12 de março de 2015, os Jornalistas Livres se definem como um “veículo de mídia alternativa em defesa da Democracia, da Cultura, dos Direitos Humanos e das Conquistas Sociais”, contrários “às mentiras veiculadas pela grande mídia, que está a serviço do grande capital”. É uma rede que cobre atos e protestos de movimentos sociais de todo o país através de fotos, vídeos e transmissões ao vivo. Além da cobertura de atos, aposta em reportagens aprofundadas de pautas mais específicas. Também faz parte do seu conteúdo diário do Facebook a publicação de charges, a divulgação de atos públicos e o compartilhamento de matérias de revistas e de outros veículos de comunicação. No Facebook, mais de 1 milhão de pessoas seguem a página e, no YouTube, o canal conta com mais de 4 milhões de visualizações.

Segundo a editora e jornalista Laura Capriglione, Jornalistas Livres é um grupo de comunicadores que abre espaço para outros comunicadores, o que explica as mais de 50 pessoas que administram a página da rede no Facebook. O grupo teve início em 2015 na cidade de São Paulo, e hoje cobre todo o Brasil. Mantém-se através de Crowdfunding (financiamento coletivo por plataformas virtuais) e seus principais temas de abordagem são moradia, política, Direitos Humanos, cultura e educação. Assim como a Mídia Ninja, também apoia abertamente movimentos sociais e políticos de diferentes partidos que dialogam com os direitos humanos.

Para esta análise, os cinco vídeos selecionados do canal do YouTube dos Jornalistas Livres são: “Balconista que foi humilhada por Celso Russomano conta sua história”, publicado no dia 20 de setembro de 2016; “Massacre do Carandiru: não dá para esquecer o que o Tribunal de Justiça quer apagar”, de 28 de setembro de 2016; “Arcebispo acusado de comunista”, publicado em 24 de março de 2016; “Acabou o caso triplex! Lula é inocente no caso triplex!”, divulgado em 20 de junho de 2017; e “Marcia Tiburi sobre o “bela, recatada e do lar” – Jornalistas Livres”, de 20 de abril de 2016.

É importante ressaltar que consideramos vídeos externos de outros veículos de comunicação porque aqui eles foram reproduzidos mediante interferência, seja na edição através da associação com conteúdos próprios do coletivo, ou através da inserção de textos que informam e acrescentam novos pontos de vistas para o espectador, ferramentas que, portanto, refletem a posição dos profissionais que contribuem para os Jornalistas Livres. É o caso do vídeo publicado em 20 de setembro de 2016, com o nome “Balconista que foi humilhada por Celso Russomano conta sua história”, que traz a versão resumida da entrevista de 26 minutos concedida por Cleide Cruz, a balconista a que se refere o título, aos Jornalistas Livres (inacessível, porém, no momento desta análise).

Fonte: Canal dos Jornalistas Livres, no YouTube.

No vídeo, as pessoas envolvidas na sua concepção constroem a narrativa desejada a partir da junção de conteúdos contraditórios do episódio do supermercado. A alternância de imagens do vídeo do deputado com imagens da entrevista de Cleide sobre o ocorrido é uma contradição que fragiliza a cena e, por isso, mantêm viva a atenção do espectador. “Aquilo que faz vacilar as referências, aquilo que mina as certezas, incluindo aquelas marcadas no instante anterior, só se faz para trazer novamente à tona a crença – imputando-lhe todas as dúvidas.” (COMOLLI, 2008, p. 95).

Embora o link para o material completo não esteja acessível mais, nota-se que a edição é fundamental para a mensagem audiovisual pretendida pelo vídeo. Com o objetivo de movimentar o espectador, aguçar nele a curiosidade de assistir ao conteúdo completo que mostraria com detalhes a situação relatada pela personagem, o jogo de cenas de argumentos contraditórios faz emergir no espectador a dúvida, a crença e a descrença nos depoimentos mostrados, prendendo a sua atenção, direcionando-o para o material completo e, possivelmente, fazendo-o refletir sobre o que vê.

Nesse link de direcionamento que foi disponibilizado, podemos identificar o “estímulo à participação do público”, trazido pela conectividade que consideramos ser um mecanismo para levar à interação entre telas e à participação do espectador. O indicador “diversidade de sujeitos representados” também pode ser verificado no vídeo, que inclui diversidade socioeconômica, cultural, de gênero e de cor para a pauta abordada. De um lado, Cleide, mulher, negra e balconista de supermercado; de outro, Celso Russomanno, homem, branco e político, que exerce algum poder sobre Cleide, funcionária orientada a cumprir ordens do seu gerente (e não do deputado).

No vídeo “Massacre do Carandiru: não dá para esquecer o que o Tribunal de Justiça quer apagar”, exibido em 28 de setembro de 2016, a “diversidade de sujeitos representados” também se faz constante. Nele, uma reunião de trechos de reportagens feitas à época do massacre mostra entrevistas com sobreviventes, testemunhas e especialistas. Montado por Joana Brasileiro para os Jornalistas Livres, no conteúdo há a presença de cortes bruscos que acabam por interromper algumas falas. E por ser uma junção de imagens prontas, sem uma introdução clara capaz de situar o espectador sobre o que será tratado, é possível que o mesmo se sinta confuso caso ele não tenha lido a descrição antes.

Fonte: Canal dos Jornalistas Livres, no YouTube.

Nos dois vídeos que não têm reprodução de conteúdos externos, vemos a presença constante dos indicadores “ampliação do horizonte do público” e “engajamento político-social”. “Acabou o caso triplex! Lula é inocente no caso triplex!”, de 20 de junho de 2017 e “Marcia Tiburi sobre o “bela, recatada e do lar” – Jornalistas Livres”, de 20 de abril de 2016, são vídeos que se dedicam a ampliar as perspectivas do espectador a partir do momento que adotam um discurso contra hegemônico para embasar o que querem abordar, isto é, levanta questões segundo um viés pouco (ou nada) abordado pelas grandes mídias.

No primeiro, a artista plástica, professora de filosofia e escritora Marcia Tiburi faz uma análise do “bela, recatada e ‘do lar’”, adjetivos atribuídos pela revista Veja à Marcela Temer, esposa de Michel Temer, num artigo publicado em abril de 2016. “Ao contrário do que a revista que fez essa matéria quer mostrar, Marcela não é uma mulher de sorte. Ela faz parte da vergonha alheia que todos estão sentindo, e que agora cria uma personagem fútil como padrão de vida feminina feliz”, afirma Tiburi, na tentativa de desconstruir e destrinchar para o público qual o real significado do artigo em questão, contrariando a imagem que a grande mídia tentava vender do então vice-presidente da República.

No segundo vídeo, a mesma tentativa acontece, só que desta vez em uma conversa com Paulo Moreira Leite, repórter de Política e editor do site Brasil 247, que defende a inocência do ex-presidente Lula no caso do triplex através de novos documentos que vieram para comprovar isso, mas que, não foram interessantes para a imprensa e nem para o judiciário, como ele mesmo fala. Aqui, como em todos os outros quatro vídeos analisados do canal, a descrição também se faz muito importante e complementar à mensagem do audiovisual que se deseja transmitir.

“E nunca com o triplex que Moro tenta provar ser de Lula. […] A Defesa de Lula teve de pesquisar em cartórios de todo o Brasil para, enfim, encontrar a prova definitiva de que o ex-presidente nada tem a ver com o tal triplex, que visitou uma única vez, e no qual não dormiu uma só noite”, consta a descrição do vídeo, feita pelo próprio canal dos Jornalistas Livres no YouTube. Na amostra analisada, todos os vídeos, de alguma forma, ampliam o horizonte do público, seja fazendo-o repensar conceitos e ideais previamente definidos, ou suscitando em si um engajamento maior na política e na sociedade do país.

Entretanto, os Jornalistas Livres apostam, mais do que tudo, na mensagem escrita para trazer novas perspectivas para as imagens que o espectador verá. Aqui, as imagens não falam por si só. Muitas vezes é preciso ler a descrição para que se compreenda por completo o audiovisual, o que acaba exigindo mais do público, já que para o seu entendimento ele tem de lançar mão da língua escrita, sistema mais disciplinado e rígido que demanda maior esforço e precisão, tanto do remetente quanto do receptor. Essa estratégia pode dificultar a compreensão de quem acessa o canal, ou até afastar os internautas das redes sociais, que não raramente não leem conteúdos escritos. Tal estratégia, portanto, pode acabar por limitar o estímulo à literacia midiática do espectador.

Por Luma Perobeli

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