Observatório da Qualidade no Audiovisual

Outras Palavras

Entre os dez maiores coletivos de mídia independente do Brasil, segundo o número de curtidas no Facebook, o Outras Palavras se define como uma referência na era da comunicação compartilhada e busca abordar temas espinhosos, pouco aprofundados pela grande mídia. Em seu site, lançado em 2009, aponta que sua temática aborda “o exame crítico da globalização, as novas culturas políticas da autonomia e os movimentos de ocupação das redes e das ruas”.

No Facebook desde agosto de 2010, o coletivo tem hoje quase 300 mil curtidas, e no YouTube, que está presente desde fevereiro de 2015, conta com pouco menos de 6 mil inscritos. O grupo se mantém através de publicidade no site, e crowdfunding (financiamento coletivo por plataformas virtuais), e é composto por seis integrantes que formam a equipe base do coletivo, além de contar com a colaboração de cerca de 200 parceiros.

Para esta análise, os vídeos selecionados do YouTube do Outras Palavras são: “Convite à desconstrução da PEC-241 [1]”, publicado no dia 10 de outubro de 2016; “Até onde vai o “novo” MBL?”, de 6 de outubro de 2017; “A ambiguidade de Safatle e a do Brasil”, publicado em 29 de agosto de 2017; “A Internet tragada pelo Capitalismo de Vigilância? | INTERNET AMEAÇADA [íntegra]”, divulgado em 5 de agosto de 2016; e “Boulos e o MTST pensam numa nova esquerda”, de 24 de dezembro de 2016.

Na plataforma, todos os cinco vídeos analisados contam com a participação de Antonio Martins, editor do Outras Palavras, e edição de Gabriela Leite, um dos outros cinco integrantes que compõem a equipe base do coletivo. Dos cinco vídeos mais populares do canal, dois são de entrevistas, e três são de análises de assuntos específicos, feitas sob a ótica da redação, sendo dois deles pertencentes ao quadro “Outro Olhar”.

Alguns padrões se repetem, como um mapa-múndi ao fundo das três produções, e o dia da semana e do mês falados no início de cada vídeo de análise. No formato entrevista, uma mesa redonda separa o(s) entrevistador(es) do(s) convidado(s), e um pano preto, ao fundo, complementa o quadro. Apesar dos padrões e da abordagem de temas de extrema importância para a ampliação do pensamento do público, o Outras Palavras parece não acreditar que o cenário e a qualidade técnica dos vídeos possam ter grande influência na concepção final da mensagem audiovisual que deseja transmitir.

O áudio não é limpo, capta todo e qualquer tipo de ruído no ato da gravação, estando, às vezes, à mostra para o espectador. Os vídeos analisados contêm muitos cortes, seguidos um do outro por um curto espaço de tempo, e o enquadramento e a angulação preferidos não favorecem o direcionamento visual do apresentador, que claramente olha para o roteiro, e não para a tela. Assim, os elementos técnico-expressivos dos vídeos escolhidos não são os mais agradáveis ao espectador, e por isso podem gerar incômodo e fazê-lo desistir de assistir ao conteúdo.

Fonte: Canal do Outras Palavras, no YouTube

Apesar disso, a barreira dos elementos expressivos é ultrapassada à medida que o espectador se envolve com o que é dito. Os indicadores “ampliação do horizonte do público” e “desconstrução de estereótipos” parecem ser prioridade para o canal que, com um discurso contra hegemônico, levanta problemáticas segundo um viés pouco abordado pelas grandes mídias. No vídeo “Boulos e o MTST pensam numa nova esquerda”, por exemplo, o ativista, psicanalista, escritor e professor Guilherme Boulos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), fala sobre a realidade brasileira de construção de alternativas políticas.

Logo no começo, o convidado reflete sobre o processo de negação e insatisfação com a política através do papel do “Podemos”, partido político de esquerda fundado em 2014, na Espanha. Trazer o cenário espanhol para a reflexão dá ao espectador a oportunidade de ampliar o seu horizonte político para além do que é trazido pelos meios tradicionais de comunicação e, assim, a oportunidade para potencializar a reflexão sobre o campo da esquerda, na realidade do Brasil.

Ao final, o entrevistado também dá um enfoque diferente do comumente dado, através da crítica ao judiciário e à grande mídia, instigando o público a desconstruir estereótipos a respeito das generalizações que se consolidaram ao longo dos anos: “Em nome do clamor de combate à corrupção, tem praticado os abusos, as perseguições políticas, enfim, passado por cima de direito de defesa, de garantia constitucional, de habeas corpus, que é base de qualquer Estado Democrático de Direito (no Brasil foi, na prática, abolido). Isso, junto com uma mídia que desmoraliza, que prepara o terreno para a criminalização, é perigosíssimo”, reflete.

Quanto à diversidade de sujeitos, o Outras Palavras parece também não se preocupar. Ainda nesse vídeo, se existe diversidade, ela está na presença de Inês Castilho, uma das seis integrantes da equipe base do coletivo, e a única mulher presente nos cinco vídeos analisados até aqui. Entretanto, mesmo uma mulher aparecendo no quadro, antes exclusivo à imagem masculina do apresentador Antonio Martins e seus convidados, poucos foram os momentos de fala de Inês.

Com relação ao estímulo à participação do público, notamos que o grupo tenta impulsionar o espectador no que tange à sua participação na democracia brasileira. Em tempos de convergência midiática, o cruzamento entre mídias de massa e mídias alternativas também se faz notável em Outras Palavras (mídia alternativa), como no vídeo “A ambiguidade de Safatle e a do Brasil”, publicado em 29 de agosto de 2017. Aqui, o apresentador Antonio Martins se dedica a mostrar duas possíveis interpretações que podem surgir do artigo “Não haverá 2018”, escrito pelo filósofo Vladimir Safatle, para a Folha de S. Paulo (mídia de massa).

Partindo do pressuposto de que o entendimento mais frequentemente adotado pelas pessoas foi o advindo de uma interpretação que ele julga ser conformista, caolha e pessimista, Martins, naquele momento, tentava chamar a atenção dos espectadores para uma outra interpretação, menos óbvia e que não conduzia ao derrotismo. “Talvez, seja a hora de dar um novo passo e, nesse sentido, o grito de alerta de Safatle. O ‘Não haverá 2018’ pode converter-se a algo como: não espere 2018, faça o acontecer!”, convocava o apresentador, estimulando o público a participar das tomadas políticas à medida que defendia que não adiássemos as lutas sociais para 2018, e que nem confiássemos unicamente nas eleições para as mudanças estruturais do nosso país.

Quanto ao indicador “engajamento político-social”, notamos que o conteúdo analisado tem posicionamento ideológico bem definido, explícito e direto para o espectador. No vídeo “Convite à desconstrução da PEC-241 [1]”, publicado no dia 10 de outubro de 2016, vemos a tentativa de promover no público reflexão e consequente engajamento político-social a partir da abordagem de um assunto que interfere diretamente na vida de todos, porém, de uma maneira contrária à emitida pelo governo e que é reportada pelos grandes veículos.

Além disso, quando o apresentador coloca em cheque nossa democracia e deixa subentendido que existimos numa farsa, num sistema mentiroso formado por poucas pessoas privilegiadas que vivem a nos enganar, há aí também uma tentativa de nos engajar política e socialmente. “Numa democracia verdadeira, sua análise [a do orçamento público] deveria ser matéria básica da educação fundamental. No entanto, ele é tratado como um segredo, ou um saber hermético, acessível apenas a um punhado de especialistas”, sugere Martins.

Fonte: Canal do Outras Palavras, no YouTube

Pensando que a discussão da qualidade está também na observação dos recursos utilizados pelas mídias para incentivar o pensamento crítico das pessoas, a equipe do Outras Palavras se dedica, até certo ponto, à educação para as mídias. A promoção de boas práticas que buscam o desenvolvimento de habilidades específicas do público para o relacionamento com as mídias, também foi observada, à medida que procura explicar o funcionamento e a lógica capitalista das empresas.

Entretanto, a mensagem audiovisual, composta por todos os elementos que influem na concepção final do espectador, parece fraca. O modo de construção/apresentação de um conteúdo é tão importante quanto o que ele diz. É a partir dos mecanismos técnico-expressivos – que vão além do conteúdo propriamente dito – que a mensagem será efetivada. Não adianta uma discussão relevante se o processo didático de apresentação (que envolve as questões de técnica e expressão) não contribui de forma eficaz para essa proposta. Assim, os conteúdos abordados pelo grupo são de extrema importância para gerar a reflexão no espectador, porém, a forma como se dão os elementos que promovem tais conteúdos parece não ser tão eficiente.

Por Luma Perobeli

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