Observatório da Qualidade no Audiovisual

Pedro e Bianca

Pedro e Bianca foi um seriado infantojuvenil produzido pela TV Cultura e Coração da Selva. Vencedor do Emmy Kids, na categoria melhor série em 2013, o programa acompanha a vida de dois jovens irmãos gêmeos que se diferenciam pelo gênero e pela cor da pele. No entanto, no decorrer da história se percebe que muitos dos problemas são recorrentes aos dois. Uma importante narrativa contemporânea que desenvolve problemáticas das minorias e das periferias da metrópole.

A série foi concebida em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e com o Fundo para o Desenvolvimento da Educação como parte do projeto Escola 2.0. Nesse contexto, reconhecesse-se a necessidade de integração das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) em todo o processo de aprendizado. Em resolução, a Secretaria define que são responsabilidades do currículo “tornar o processo de ensino e aprendizagem, em sala de aula, mais diversificado, dinâmico e personalizado [e] disponibilizar ao aluno conteúdo digital para reforçar, recuperar ou complementar seus estudos”. No mesmo documento, são indicados como responsabilidades do “Professor 2.0” a “estimular, apoiar e ampliar o uso das tecnologias integradas ao currículo nas unidades escolares [e] incentivar a produção e o compartilhamento de atividades, em especial, que utilizem as […] [TIC] como ferramenta”.

Exibido originalmente aos domingos às 14h30, em um dia e horário em que outras emissoras abertas exibiam programas generalistas e não direcionados para essa audiência como o bloco de filmes Temperatura Máxima na Rede Globo e o Domingo Legal no SBT. Nesse sentido, a localização da produção na grade permitia outra opção de consumo de entretenimento a essa faixa etária, como uma história pensada e desenvolvida inserida no contexto nacional.

Ambientada na periferia de São Paulo, Pedro e Bianca moram com os pais e iniciam uma nova fase da vida: o ingresso no Ensino Médio. E nesse espectro da transição da infância para a adolescência que se desenvolvem os principais arcos narrativos: a entrada no novo colégio, as intempéries que advém de novas vidas, a luta por espaço e identidade – metaforizada na disputa pelo “território” do quarto, etc.

Os cenários variam entre as ruas da metrópole, as internas na escola e na casa simples da família. Todos são bastante realistas, os personagens dividem um quarto pouco iluminado em que se vê um beliche e a vista da janela desemboca na cozinha. Os outros espaços cênicos internos à casa também mantêm esse aspecto, o quarto da avó com móveis antigos e pouca luz e a cozinha que funciona também de sala de jantar.

Em relação ao colégio, as cenas foram gravadas na Escola Estadual Alberto Torres, no bairro Butantã, Zona Oeste da capital paulista. A fotografia apresenta tons neutros e poucos elementos de solarização artificial sendo, portanto, fiel ao esmaecimento característico das imagens da cidade.

A trilha sonora foi composta por André CacciaBava e Fabio Góes da Animal Studios. Primordialmente instrumental, também incorpora efeitos sonoras como elementos condutores da narrativa, principalmente no que se refere a inserção de efeitos especiais que interseccionam a linguagem ficcional com a animação e os quadrinhos.

A edição é comumente e linear, isto é, os fatos são desenvolvimentos em relação em sequência cronológica. No entanto, são usados alguns recursos narrativos como flashbacks para incorporar elementos não-lineares.

No que se refere à ampliação do horizonte do público, o seriado incorpora uma série de temáticas pertinentes à atualidade. Algumas das discussões são incorporadas aos arcos como, por exemplo, a própria concepção das personagens principais, a presença de outros grupos étnicos que chegam à escola, a comparação entre corpos que se materializa na busca pelo o que é tido como perfeito, etc. Em outros momentos, episódios inteiros são dedicados à temas sociais como, por exemplo, Preconceito e Discriminação, Até Quando? em que os atores que interpretam os personagens principais recebem alunos da rede de ensino estadual e escutam suas histórias – descolando-se da ficção para o documentário, mas ainda interno ao espectro do seriado.

Pedro e Bianca é por si só uma narrativa que incorpora a diversidade. Em primeiro lugar, cabe destacar a diversidade de sujeitos. Isto é, a própria dicotomia étnico-racial que é sempre combatida e refletida, às questões relacionadas as posições estratificadas socialmente e destinada a determinado gênero, as múltiplas faces de moradores da periferia, etc. Em relação aos temas, uma segunda perspectiva é comumente adicionada e são levantadas importantes discussões que sintetizam a vida dos jovens que percorrem desde a gentrificação do espaço, com projetos de construção que encareceriam seu bairro à sexualidade. Nesse sentido, o desenvolvimento da história engloba uma série de pontos de vista que tem elevado grau de importância no contexto social em que se insere.

Além disso, conforme anteposto, a abundância de sujeitos representados permite a identificação dos mais diversos tipos de componentes sociais que integram o público jovem. Nesse sentido, é interessante notar que não há uma unidade nem na representação física das personagens de maneira geral e nem mesmo no explorar das personalidades e condições psicológicas. Coexistem na tela, personagens negros e brancos; sujeitos que transitam entre os gêneros no que se refere à leitura social (isto é, podem ser identificados pela sociedade como de qualquer uma dos espaços binários a depender da situação e localidade); são exploradas a timidez, a vaidade; a vergonha que advém do desconforto com a aparência; a descriminação e a força que advém da luta contra ela. Um importante marco na história da televisão brasileira que pode servir de mote para a desconstrução de pensamentos solidificados no contexto social e de meio de empoderamento de muitos jovens.

No entanto, a linguagem do seriado permite que possa ser visionado por uma ampla faixa etária. Além das temáticas que por vezes podem se tornar inteligíveis para crianças mais novas também são inseridos elementos lúdicos que corroboram o entendimento e desenvolvem outros aspectos da narrativa. Por exemplo, o pai do casal de gêmeos é dotado de um super-poder que advém de um acidente de trabalho. Ele levou um choque enquanto fazia a manutenção de um transformador em um poste e, desde então, quando se irrita emana eletricidade. Em alguns momentos, esse recurso é utilizado para complementar a carga dramática da cena como, por exemplo, quando ele queima um pão que segura porque os jovens começam a brigar a mesa. A própria abertura explora esse e outros elementos narrativos em formato de animação.

Outro elemento recorrente que, também, advém da animação diz respeito à inserção de onomatopeias e desenhos na tela que indicam o que ocorre. As próprias cenas de abertura em que os personagens principais indicam o fio condutor dos episódios também a explora a dicotomia étnico-racial recorrente na série através de recursos gráficos, eles se encontram em fundo preto e branco, intercalando falas.

 

A trama engloba múltiplos arcos narrativas que normalmente se centralizam nos personagens que dão nome ao programa, mas se estendem por outros como, por exemplo, a problemática que envolve os imigrantes de outros países sul-americanos. Além disso, apesar de ser composta por episódios independentes, alguns tópicos, assuntos e momentos anteriormente exibidos são explorados e retomados em episódios subsequentes.

Em relação aos personagens, é notável que Pedro (Giovani Gallo) e Bianca (Heslaine Vieira) Soares Araújo são os principais fios condutores da narrativa. Nesse sentido, conforme anteposto, é a partir deles que se desenvolvem outros arcos narrativos, explorando seus relacionamentos com a família, com a escola, com os amigos e professores. O casal de irmãos gêmeos bivetelinos não compartilham a mesma carga genética e, por isso, nasceram de cores diferentes: Pedro é branco e Bianca é negra. No contexto da série, resultado de um relacionamento inter-racial entre Zuzu Soares Araújo (Gorete Milagres), uma mulher branca, e Edison Soares Araújo (Thogun Teixeira), um homem negro; o arco que pretende explicar o nascimento deles apresenta capas de revistas e uma tele reportagem noticiando-os como um milagre e um caso raríssimo na medicina. De fato, trata-se de um caso raro na genética, no entanto ainda não existem estatísticas oficiais que dimensionem tal probabilidade enquanto no seriado são citadas informações que determinam que são casos que ocorrem na proporção um para um milhão.

Os personagens são bastante complexos e não se limitam a experimentar momentos de um único tipo. Por exemplo, Pedro se comporta como um adolescente introvertido em determinados momentos, mas muitas vezes sua personalidade dominadora é explorada no que diz respeito à irmã. Em relação à sua caracterização, visto que boa parte da trama se desenvolve no interior da escola, ele está comumente com o uniforme escolar. Em momentos externos a esse cenário, utiliza roupas populares entre adolescentes. É recorrente o uso de tons sóbrios e camisetas lisas em composição com jeans e bermudas largas. Pedro também sempre carrega consigo seu skate, objeto que faz parte de sua caracterização física e de sua personalidade.

Bianca também transita entre diferentes espaços da personalidade e pode se demonstrar como uma jovem mimada pelos pais e que frequentemente entra em embate com eles ou como tímida e envergonhada por sua aparência, corpo, traços fenotípicos e cabelo. Esse ponto traz uma grande carga de responsabilidade social no que se refere a promoção da aceitação de identidades étnico-raciais que perpassam toda a trama, desde o arco que discorre sobre o alisamento de seus cachos. Em outros momentos, ela pode reproduzir preconceitos, descolando-se para a posição de agente opressor na sociedade, como quando, por exemplo, prefere não se associar com a estudante Rosário cuja nacionalidade não é explicitamente indicada, mas fica claro que é uma imigrante de algum país da América Latina cuja língua é o castelhano. Assim como Pedro, Bianca também está normalmente vestindo o uniforme da escola em que estuda. Em cenários diversos, o figurino da personagem explora mais cores do que o do irmão, mas, também, tratam-se de roupas típicas de jovens de sua faixa etária.

Em relação à experimentação e inovação, o seriado usa o modelo tradicional de narrativa episódica e faz uso primordialmente de planos comuns ao meio televisivo. Como, por exemplo, os planos médio e americano, além de intercalar o enquadramento entre personagens conforme se desenvolvem alguns diálogos.

No entanto, conforme relatado, outras linguagens também são incorporadas como a própria animação e, também, planos mais abertos recorrentes no cinema, o que amplia as possibilidades de fruição do público. O seriado também faz uso de muitas transições entre alguns planos, distanciando-se dos cortes secos comuns à televisão e ao cinema.

Em relação ao apelo à curiosidade, os argumentos dos episódios são construídos de modo a dar respostas mais claras ao final. Nesse sentido, o modelo da “moral da história” aplicado ao seriado prejudica um pouco esse quesito visto que as informações e as discussões ali contidas não se esgotam na trama, mas nesse âmbito se concluem, pouco contribuindo com a promoção desse aspecto no que se refere à busca por mais informações externas ao programa.

Pedro e Bianca possuía um site hospedado no extinto portal cmais+ da TV Cultura. Segundo a própria página, esse portal condensava os conteúdos dos canais os canais TV Cultura, UnivespTV, MultiCultura, TV Rá-Tim-Bum! e das rádios Cultura Brasil e Cultura FM. No que se refere à página dedica ao seriado, limitava-se a informações sobre o programa e sem propostas mais interativas tais como jogos e expansões narrativas. Desse modo, subdividia-se nas seguintes seções: Episódios – em que a série poderia ser assistida por demanda; Personagens – com descrições curtas; A escola – sobre a locação; Mídia – destinada aoclipping; Galeria de imagens – com fotos do seriado; Sobre – dividida entre a ficha técnica (Equipe) e descrição da produção (O projeto) e Fale Conosco. Em análise de snapshots do site através da plataforma WaybackMachine percebeu-se, também, que apesar de ter sofrido alterações de layout, a página não possuiu alterações significantes de conteúdo durante a exibição (entre o fim de 2012 e meados de 2014).

Por Vinícius Guida

Ficha Técnica:

  • Direção: Fábio Mendonça, Roberto Moreira, Jeferson De, CaoHamburguer
  • Roteiro: Marcos Lazarini (coordenador)
  • Elenco: Giovanni Gallo, Heslaine Vieira, Gorete Milagres, Thogun Teixeira, Amanda Guarnieri, Olívia Klein, Vitor Hugo Rapace, Nina Lima, Letícia Fagnani, Fernando Haro, Jucelino Lopes
  • Exibição: 11/11/2012 a 02/03/2014
  • Temporadas: 1 temporada
  • Número de episódios: 51
  • Duração: 30 minutos

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