Observatório da Qualidade no Audiovisual

Recomendações

DECLARAÇÃO DE JUIZ DE FORA

Entre os dias 23 e 25 de outubro de 2017, na cidade de Juiz de Fora, reuniram-se durante o II Congresso Internacional sobre Competências Midiáticas 23 participantes representantes de 11 países ibero-americanos integrantes da Red AlfamedRed Interuniversitaria Euroamericana de Investigación en Competencias Mediáticas para la Ciudadanía, com o objetivo de promover o intercâmbio de informações sobre as Competências Midiáticas e estudos da confluência entre Mídia e Educação. Participaram da Reunião pesquisadores das áreas de comunicação e educação dos seguintes países: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Espanha, México, Peru, Portugal, República Dominicana e Venezuela.

O evento contou com o apoio das seguintes instituições: CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior vinculada ao Ministério da Educação do Brasil, FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, CNPQ –Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, AUIP – Asociación Universitaria Iberoamericana de Postgrado,Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Estadual de Ponta Grossa, Universidade de Brasília, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal do Triangulo Mineiro, Universidade de Sorocaba.

Introdução

Com o espírito das cartas e declarações de Grünwald (1982), Tolouse (1990), Viena (1999), Sevilha (2002), Bellaria (2002), Alexandria (2005), Toledo (2006), Paris (2007), Florianópolis (2007) Lima (2009), Bruxelas (2010), Braga (2011), Fez (2011), Moscou (2012), Havana (2012), Ponta Grossa (2013) e considerando as Recomendações do Seminário Televisão e Infância (1995), Carta do Rio (2004), Depoimentos de crianças sobre a Carta de Ponta Grossa de Mídia e Educação e Indicações da Alfamed Jovem lançamos o presente documento como forma de reafirmar compromissos e estabelecer metas de ação para o desenvolvimento das competências midiáticas no âmbito dos países membros. Também o fazemos em nome da democracia, esperança, solidariedade e cidadania para que o mundo que vem possa ser desde agora um mundo de paz e derespeito à diversidade e às diferentes culturas.

Estamos vivendo na atualidade um crescimento de forças antidemocráticas que pregam a separação, a desvalorização de grupos sociais, de suas culturas, em que o outro é visto como invasor, como perigoso ou como inferior e por isso passível de desumanização, de descarte. A arma tem sido mais valorizada que o diálogo e os conflitos são resolvidos com a eliminação dos problemas, com isso cresce a violência contra mulheres, crianças, minorias ou contra a própria vida.

Num cenário de desolação como esse, a esperança pode ser revolucionária. Precisamos encontrar novos sentidos, e não abrir mão de fazer a leitura crítica da realidade. Precisamos desenvolver competências que nos habilitem para o conhecimento de nós mesmos e o reconhecimento do outro, paraque sejamos capazes de nos reconhecer como sujeitos históricos, políticos,de compreender o nosso papel no mundo e de contribuir comnossas ações para a transformação social.

A mídia tem assumido um papel estruturante ao participar como elemento intermediador de relações sociais e econômicas. Ela circula mensagens que participam da elaboração da nossa visão de mundo. Além disso, suas características técnicas também influenciam a forma como nos relacionamos com essas mensagens, num cenário em que a instantaneidade e a rapidez se tornaram valores com a introdução de inovações tecnológicas. Ao mesmo tempo, a mídia também é impactada pelo uso que dela fazemos, pela forma como lemos e ressignificamos as mensagens que circulam e também pela forma como produzimos mensagens e somos capazes de fazê-las circular no ambiente midiático.

Ainda que os avanços tecnológicos disponibilizados nas redes sociais nos habilitem também a produzir e circular mensagens, temos que levar em conta que as empresas de mídia ainda estão concentradas nas mãos de poucas famílias ao redor do mundo. Dessa forma,a ausência de literacia midiática pode ser fator de segregação e exclusão social, seja pela falta de acesso aos conhecimentos produzidos historicamente pela humanidade, seja pelo apagamento de culturas tradicionais, pela manipulação de informações, pela negação da existência grupos sociais desfavorecidos como sujeitos históricos e de direitos.

É preciso como sugere Paulo Freire fazer o “[…] exercício de pensar o tempo, de pensar a técnica, de pensar o conhecimento enquanto se conhece, de pensar o quê das coisas, o para quê, o como, a favor de quê, de quem, o contra quê, o contra quem são exigências fundamentais de uma educação democrática à altura dos desafios do nosso tempo”.

Neste contexto se impõe o desenvolvimento de competências midiáticas, entendidas como a capacidade de acessar, analisar e avaliar as imagens, os sons e as mensagens que confrontam o sujeito contemporâneo, assim como comunicar de forma competente através das mídias disponíveis. Habilitando os cidadãos para o pensamento crítico e a resolução criativa de problemas, teremos consumidores sensatos e produtores de informação. Nesse sentido, a competência midiática visa aumentar o conhecimento sobre as diversas formas de mensagens midiáticas presentes na vida contemporânea e ajudar os cidadãos a compreenderem a forma como as mídias filtram percepções e crenças, formatam a cultura popular e influenciam as escolhas individuais.As competências midiáticas são definidas de acordo com Ferrés e Ferrés e Piscitelli (2007; 2012) em relação às dimensões Linguagem, Tecnologia, Processos de Interação, Produção e Difusão, Ideologia e Valores e Estética nos âmbitos de expressão e análise.

Recomendações:

1) Estimular a educação para as competências midiáticas:

  1. A) A educação das competências deve considerar todas as fases da vida e todos os níveis de ensino.
  2. B) A educação para as competências midiáticas devem considerar ambientes escolares e não escolares como bibliotecas públicas, associações civis, centros culturais.
  3. C) A educação para as competências midiáticas deve ser considerada também responsabilidade dasempresas de mídia.
  4. D) Educar para o senso crítico e autonomia de julgamento.

2) Formação de educadores e profissionais de comunicação

  1. A) Ofertar na formação de professores, educadores sociais, bibliotecários e comunicadores disciplinas voltadas para o estudo do desenvolvimento de competências midiáticas em nível médio, superior, pós-graduação e emprojetos de pesquisa e extensão.
  2. B) Oferecer materiais didáticos e guias de boas práticas para a formação desses profissionais.
  3. C) Promover a elaboração de produtos audiovisuais que estimulem o desenvolvimento de competências midiáticas a fim de divulgar a importância deste debate no ambiente digital.

3) Estimular a pesquisa

  1. A) Estimular a investigação interdisciplinar e interinstitucional sobre competências midiáticas.
  2. B) Estimular a investigação de boas práticas e metodologias de ensino.
  3. C) Estimular a formação de pesquisas entre países membros da rede.
  4. D) Estabelecer as linhas de investigação em função dos trabalhos de investigação que estão sendo desenvolvidos pelos integrantes da rede, bem como aqueles finalizados, para difundir alguns de seus resultados através de recursos midiáticos, tais como podcasts, vídeos, ouou blogs.

4) Ações no âmbito da Rede

  1. A) Estimular a criação de políticas em âmbitos local, regional, nacional, de inclusão do estudo e prática de competências midiáticas em todos os níveis de ensino. E que nas reuniões seja reservado um espaço para reuniões setorizadas, e reuniões gerais, bem como para reuniões de estudos.
  2. B) Publicar livros conjuntos envolvendo membros de diferentes países da rede.
  3. C) Criar um repositório de textos acadêmicos, teses, dissertações, livros de referências nas três línguas da rede (português, espanhol e italiano).
  4. D) Criar repositório de materiais pedagógicos e guias nas três línguas (português, espanhol e italiano).
  5. E) Criar canal de divulgação de materiais audiovisuais sobre as competências midiáticas nas três línguas (português, espanhol e italiano).
  6. F) Oferecer cátedras da ALFAMED para os países membros.
  7. G) Promover o empoderamento de mulheres e grupos excluídos.
  8. H) Promover eventos bienais de toda a rede alternados com eventos regionais para facilitar a participação de um número maior de pesquisadores. Se possível alternar eventos internacionais nos hemisférios Norte e Sul.
  9. I) Promover festivais de produção audiovisuais que estimulem a discussão sobre as competências midiáticas, voltadas para diferentes públicos. Habilitar uma plataforma aberta que convide e permita que os usuários configurem, alterem e modifiquem os processos de pesquisa e produção.
  10. J) Apoiar uma comunidade ativa de usuários por meio do desenvolvimento desses projetos colaborativos.
  11. K) Oferecer diferentes formas de participação que permitam a colaboração de pessoas com diferentes perfis (artístico, científico, técnico), níveis de especialização (especialistas e iniciantes) e graus de envolvimento.
  12. L) Incentivar ações que considerem o estudo das competências midiáticas no âmbito dos direitos à informação, à liberdade de expressão, à privacidade, à preservação da memória e das tradições.

5) No âmbito da comunicação e da informação

  1. A) Estimular a produção de mídia de qualidade para todos os públicos.
  2. B) Incentivar a criação de espaços multimídia em bibliotecas e centros culturais para a democratização de estudos, cursos e oficinas que auxiliem o desenvolvimento de competências midiáticas.

6) No âmbito da Infância e juventude

  1. A) Criar um Laboratório acadêmico de produção, pesquisa e disseminação de conteúdos e formatos digitais que explore os processos de experimentação, criatividade e usos midiáticos que surgiram com a ruptura digital (sem esquecer as vanguardas da mídia histórica).
  2. B) Incentivar a produção de mídia de qualidade voltada para a infância e juventude visando também à experimentação estética.
  3. C) Incentivar a participação da infância e juventude em pesquisa como parceiros e produtores de conhecimento e não somente como destinatários.
  4. D) Incentivar e acompanhar a criação de canais de produção de conteúdos por crianças e adolescentes que coloquem em movimento as competências midiáticas ao mesmo tempo em que estimulem a produção criativa de mídia.

7) No âmbito dos governos

  1. A) Assessorar a criação de políticas públicas de inclusão do estudo das competências em todos os níveis de ensino.
  2. B) Incentivar o fomento para a pesquisa nessa área proporcionando a compra de equipamentos, a oferta de bolsas e a produção de materiais midiáticos e pedagógicos.
    C)Incentivar a cooperação entre governos pesquisadores, educadores e produtores de mídias.
  3. D) Incentivar que as mídias públicas possam reservar espaços para a divulgação e desenvolvimento de competências midiáticas.
  4. E) Incentivar e assessorar a criação de campanhas públicas de sensibilização para o desenvolvimento de competências midiáticas.

Após apresentação e discussão esta declaração foi aprovada em outubro de 2018

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