Observatório da Qualidade no Audiovisual

Fanfic

Análise das fanfictions da temporada “Viva a diferença” de “Malhação”

A convergência midiática amplificou e reconfigurou as práticas da cultura de fãs(PEARSON, 2010; BENNETT, 2014; LOPES et al., 2015). Nesse contexto, o ambiente digital não só estabelece uma relação simbiótica entre produtores e consumidores, mas contribui na propagação dos conteúdos produzidos pelos fãs. Conforme apontam Lopes et al. (2015, p. 22), “Novas perspectivas tecnológicas surgidas principalmente com a popularização da internet garantem noções diferentes de sociabilidade e interações entre os fãs”.

Para Bennett (2014) as mudanças propiciadas pela cultura da convergência podem ser sistematizadas em quatro pontos centrais: a comunicação, a criatividade, o conhecimento e o poder organizacional e cívico. Segundo a autora (2014, p.7-11), na contemporaneidade os fãs têm novas formas de produzir, compartilhar, participar e se engajar em torno dos universos ficcionais. Isto é, as plataformas digitais permitem a troca e a replicação instantânea das informações, além de facilitarem as mobilizações contra o cancelamento dos programas e de debates relacionados às questões sociais e políticas (ROSE, 2011; BORGES et al. 2017).

De acordo com Sandvoss (2005) e Jenkins et al. (2014) os fãs são um ponto de referência nas discussões sobre a produção e o consumo na contemporaneidade. Conforme ressaltam Jenkins et al. (2014, p. 56),esses grupos “[…] em específico têm sido inovadores no uso de plataformas participativas para organizar e responder a textos de mídia”. Para os autores, os fãs “[…] abraçam as novas tecnologias conforme vão aparecendo, em especial quando esses recursos lhe oferecem novos meios de interagir social e culturalmente” (JENKINS et al., 2014, p.57).

Ao envolver o domínio de conhecimentos, habilidades e o engajamento do público em relação aos conteúdos, a cultura de fãs estabelece uma relação direta com a competência midiática (JENKINS, 2012; BORGES et al., 2017; HERRERO-DIZ,2017; SIGILIANO; BORGES, 2018). O conceito de competência midiática é norteado por uma complexa tradição epstemológica. Segundo Potter (2010) as discussões sobre o tema se popularizaram nas últimas três décadas e abrangem variados campos de estudo como, por exemplo, a Comunicação e a Educação. A pluralidade e as distintas abordagens são reflexo da constante tentativa da área em acompanhar as transformações do ambiente comunicacional (HERRERO-DIZ, 2017, SCOLARI, 2016). Como explica Scolari (2016, p. 4) a competência midiática “[…] é um conceito flexível, porque evolui e se adapta às transformações do ecossistema midiático e às diferentes perspectivas teóricas” (livre tradução da autora).

Entretanto, apesar das múltiplas abordagens as discussões sobre a competência midiática têm como ponto central a combinação de conhecimentos e de práticas políticas, sociais e culturais que habilitam os cidadãos a pensar criticamente sobre os meios de comunicação (LIVINGSTONE, 2004; POTTER, 2010; FERRÉS & PISCITELLI, 2015; BORGES et al., 2017). Conforme define Livingstone (2004, p. 19) a competência midiática se refere “[…] a capacidade de acessar, analisar, avaliar e criar mensagens através de uma variedade de contextos diferentes” (livre tradução da autora).

Segundo Black (2007) e Jenkins (2012) no âmbito da cultura participativa, as fan fictions refletem de forma nítida os aspectos centrais da competência midiática. Os primeiros registros de fan fictions antecedem a década de 1930 (JAMISON, 2017). De acordo com Jamison (2017), as narrações em prosa de histórias fictícias criadas por fãs circulavam por meio de pulp magazines e fanzines. As tramas tinham como ponto de referência os universos ficcionais (filmes, livros, programas de TV, HQs, etc.) e até o cotidiano de artistas.

Jamison (2017) pontua que no âmbito das narrativas ficcionais seriadas televisivas as fan fictions podem aprofundar e ampliar os arcos narrativos que já estão presentes no universo ficcional, além de abordar tramas que não foram exploradas pelos roteiristas. Como, por exemplo, o emblemático romance entre Kirk e Spock, da franquia Star Trek, que apesar de não integrar o paratexto é um tema recorrente nas histórias desenvolvidas pelos fãs. O autor também afirma que a fan fiction pode ser usada para corrigir aspectos que não agradaram o público. Exibida pelo canal estadunidense CBS, a série Beauty and the Beast (1987-1990, CBS) teve sua narrativa modificada na fan fiction. Depois de os roteiristas terem distanciado os protagonistas Vincent (Ron Perlman) e Catherine Chandler (Linda Hamilton) do viés romântico, os fãs se mobilizaram para criar uma fan fiction que explorasse o relacionamento dos protagonistas (JAMISON, 2017, p.17-31).

Esse processo de construção de histórias pautadas no paratexto possibilita diversos modos de aprendizagem (THOMAS, 2007; JENKINS, 2008). Segundo Jenkins (2012) as fan fiction estimulam a competência midiática, pois propiciam a leitura crítica e criativa dos conteúdos. O autor afirma que ao consumir um conteúdo o fã avalia a obra como um produto estético, analisando sistematicamente cada elemento. Como, por exemplo, a caracterização dos personagens, os desdobramentos dos plots, as intertextualidades e a coerência narrativa. Esse metatextoelaborado pelos telespectadores ávidos permite que eles ‘avaliem’ o que pode ser ampliado, aprofundado e ressignificado na fan fiction.

A partir deste escopo teórico este projeto tem o objetivo de discutir as intercessões entre a competência midiática e a produção de fan fictions no Brasil. Para a reflexão desta questão iremos adotar a metodologia proposta por Ferrés e Piscitelli (2015) para avaliar e promover o desenvolvimento da competência midiática na cultura participativa. Os autores definem seis dimensões(linguagem, ideologia e valores, estética, tecnologia, processos de interação e de produção e difusão) a partir das quais os indicadores são elaborados. Por sua vez, estes se relacionam tanto ao âmbito de análise, isto é, a forma como as pessoas recebem e interagem com as mensagens, quanto ao âmbito de expressão, que se refere ao modo como as mensagens são produzidas pelas pessoas.

Criada por Cao Hamburger, a vigésima quinta temporada de Malhação (Rede Globo, 1995- atual), intitulada Malhação: Viva a Diferença (2017-2018), bateu recordes de audiência e promoveu a discussão de temas até então inéditos na trama. Pela primeira vez, em 25 anos de exibição, a atração infantojuvenil foi protagonizada por cinco mulheres. As adolescentes Keyla (Gabriela Medvedovski), Benê (Daphne Bozaski), Tina (Ana Hikari), Lica (Manoela Aliperti) e Ellen (Heslaine Vieira), de origens e personalidades diferentes, ficam presas no mesmo vagão de metrô durante uma pane elétrica. A personagem Keyla (Gabriela Medvedovski) entra em trabalho de parto e as adolescentes se unem em solidariedade para ajudá-la no nascimento do bebê. Ao longo de seus 222 capítulos a telenovela tratou de questões como, por exemplo, o racismo, a diversidade, a síndrome de Asperger, o feminismo, o assédio sexual e a homofobia. A trama mobilizou as redes sociais e, principalmente, os sites nacionais de fan fictions. No Spirit Fanfics e no Nyah! Fanfiction foram publicadas mais de 461 fan fictions durante o período de exibição da telenovela, gerando cerca de 92.290 mil visualizações. As histórias, criadas pelos fãs, aprofundavam os arcos narrativos da atração e exploravam os desdobramentos que não estavam presentes no universo ficcional.

Neste contexto, o problema de pesquisa deste projeto está alicerçado na seguinte reflexão: quais dimensões da competência midiática estão operação nas fan fictions criadas pelos fãs de Malhação – Vida a Diferença. O projeto dará continuidade há outras pesquisas que vem sendo realizadas nesta área pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual envolvendo a competência midiática e as práticas da cultura de fãs (BORGES; SIGILIANO, 2017; BORGES et al., 2017, BORGES, 2018).

 

Referências:

BENNETT, L. Tracing Textual Poachers: reflections on the development of fan studies and digital fandom. In Journal of Fandom Studies, v. 2, n.1, p.5-20, 2014.  Disponível em: <https://bit.ly/2Gywpfh>. Acesso em: 4 abr. 2018.

BLACK, R. Access and Affiliation:The New Literacy Practices of English Language Learners in an Online Anime-based Fanfiction Community. Paper presented to the National Conference of Teachers of English Assembly for Research, Berkeley, CA, 2004.

BLACK, R. Digital Design: English Language Learners and Reader Reviews in Online Fiction. In: KNOBEL, M.; LANKSHEAR, C. (Eds.). A New Literacies Sampler. New York: Peter Lang, 2007, p. 115-136

BORGES, G. A literacia midiática no campo da comunicação. In Aula Magna, Universidade Federal Fluminense, Niterói. Programa de Pós Graduação em Mídia e Cotidiano, 2018.

_______. et al. Fãs de Liberdade, Liberdade: curadoria e remixagem na social TV. Lopes, M. I.V. de (Org.). Por uma teoria de fãs da ficção televisiva brasileira II: práticas de fãs no ambiente da cultura participativa. Porto Alegre: Sulina, 2017, p.93-135.

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EVANS, A; STASI, M. Desperately seeking methodology: New directions in fan studies research. In Participations – Journal of Audience & Reception Studies, v. 11, n. 2, p. 4-23, 2014. Disponível em: <https://bit.ly/2IdokgX>. Acesso em: 12 mai. 2018.

FERRÉS, J; PISCITELLI, A. Competência midiática: proposta articulada de dimensões e indicadores. In Lumina, v. 9, n, 1, p. 1-16, 2015. Disponível em: <https://goo.gl/3EQnc6>. Acesso em: 12 mai. 2018.

HERRERO-DIZ, P. et al. Estudio de las competencias digitales en el espectador fan español. In Palabra Clave, v.20, n.4, p.17-947, 2017. Disponível em: <https://bit.ly/2uMbGPz>. Acesso em: 12 mai. 2018.

JAMISON, A. Fic – Por que a fanfiction está dominando o mundo. São Paulo: Rocco, 2017.

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LIVINGSTONE, S. What is media literacy?. In Intermedia, v.32, n.3, p. 18-20, 2004. Disponível em: < https://bit.ly/2rzwkO2>. Acesso em: 12 mai. 2018.

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PEARSON, R. Fandom in the Digital Era. In Popular Communication: The International Journal of Media and Culture, v. 8, n. 1, p. 84-95, 2010. Disponível em: <https://bit.ly/2q5Q7nu>. Acesso em: 12 mai. 2018.

POTTER, J. The State of Media Literacy. In Journal of Broadcasting & Electronic Media, v. 54, n.4, p. 675-696, 2010. Disponível em: <https://bit.ly/2q6yVyW>. Acesso em: 12 mai. 2018.

ROSE, F. The Art of Immersion: How the Digital Generation Is Remaking Hollywood, Madison Avenue, and the Way We Tell Stories. New York: W W Norton & Company, 2011.

SANDVOSS, C.Fans: The mirror of consumption. Cambridge: Polity, 2005

SCOLARI, C. A. Transmedia Literacy: Informal Learning Strategies and Media Skills in the New Ecology of Communication . In Revista Telos – Cuadernos de Comunicación e Innovación, p. 1-9, 2016. Disponível em: <https://goo.gl/1KtnZD>. Acesso em: 12 mai. 2018.

SIGILIANO, D; BORGES, G. Competência Midiática: o ativismo dos fãs de The Handmaid’s Tale. In Comunicação & Inovação, v. 19, n. 40, 2018 (no prelo)

THOMAS, A. Blurring and Breaking through the Boundaries of Narrative, Literacy, and Identity in Adolescent Fan Fiction. In MICHELE, K ; COLIN L. (Eds). A new literacies sampler .Nova York: Peter Lang Publishing, 2007, p. 137-166.

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