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Sítio do Picapau Amarelo

Sítio do Picapau Amarelo é, originalmente, uma série de livros de literatura fantástica composta por vinte e três volumes escritos pelo autor brasileiro Monteiro Lobato entre 1920 e 1947. Essas histórias ultrapassaram as páginas dos livros e viraram filmes (O Saci, 1951; O Picapau Amarelo, 1973), cinco adaptações para séries de TV, uma série de animação e diversos outros produtos dentre peças teatrais e álbuns musicais.

Em julho de 2000, a TV Globo, que já havia produzido em 1977 uma versão do Sítio, assina um contrato com os herdeiros de Monteiro Lobato, para produzir uma nova adaptação para a televisão. A estreia foi marcada para uma sexta-feira, 12 de outubro de 2001, em comemoração ao Dia da Criança. Essa adaptação foi ao ar até o dia 7 de dezembro de 2007 contando com sete temporadas no total.

Nesta análise nos debruçamos sobre a primeira temporada desta versão, exibida de 12 de outubro de 2001 a 22 de agosto de 2002 e compreendendo, em sua maioria, adaptações das histórias literárias. A partir da segunda temporada, os personagens passam a integrar aventuras não-contidas nos livros de Lobato.

O cenário principal da trama é um sítio, batizado de Picapau Amarelo, onde mora Dona Benta (Nicete Bruno), uma senhora de cerca de sessenta anos que vive em companhia de sua neta Lúcia (Lara Rodrigues), apelidada por Narizinho e a empregada, Tia Nastácia (Duh Moraes). Narizinho tem como amiga inseparável uma boneca de pano velho chamada Emília (Isabelle Drummond), feita por Tia Nastácia. Durante as férias escolares, Pedrinho (César Cardadeiro), primo de Narizinho, passa uma temporada de aventuras no Sítio. Juntos, eles desfrutam de aventuras explorando fantasia, descoberta e aprendizagem que incluem a convivência com criaturas mágicas como o Visconde de Sabugosa (Cândido Damm), a Cuca (Jacira Santos), o Saci (Isak Dahora), Conselheiro (Zé Clayton), Marquês de Rabicó (Aline Mendonça) e Quindim (Sidney Beckencamp). Em várias ocasiões eles deixam o sítio para explorar outros mundos, como a Terra do Nunca, a mitológica da Grécia Antiga, o espaço sideral e um mundo subaquático conhecido como Reino das Águas Claras.

Inicialmente, esta versão do Sítio do Picapau Amarelo era exibida diariamente dentro do bloco TV Globinho do programa Bambuluá (2000), comandado pela apresentadora Angélica e divididas em episódios com 15 minutos de duração, sendo concluídas, em média, em uma semana. Com o fim de Bambuluá, em dezembro de 2001, a série se tornou um programa independente na grade.

A data de estreia da série foi marcada para o feriado de 12 de outubro de 2001, Dia de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, e também comemorado o Dia da Criança. Segundo a Folha Ilustrada, na época a emissora dedicava cerca de duas horas e meia à programação infantil no bloco intitulado Bambuluá que se iniciava às 9h25. Esse bloco compreendia o programa apresentado por Angélica, que continha uma telenovela transcorrida na fictícia cidade de Bambuluá retratando as aventuras de Angélica e os Cavaleiros do Futuro, e as intervenções da TV Globinho, uma espécie de emissora de TV da cidade, que exibia desenhos animados como Digimon, Arthur e Monster Rancher. Como mencionado anteriormente, o Sítio também era exibido dentro da TV Globinho de Bambuluá. Na ocasião da estreia, também foi exibido o filme Menino Maluquinho (1998) na faixa de filmes Sessão da tarde, exibida às 15h30.

A série foi reprisada na TV pelo Canal Futura em 2008, pelo VIVA em 2010, pelo Gloob em 2012 e pela TV Cultura em 2013. Porém, nenhuma dessas exibições contemplou a íntegra das sete temporadas produzidas nessa versão.

O sucesso de Sítio do Picapau Amarelo foi imediato, chegando a 15 pontos de audiência, segundo o Estadão. Com isso, diversos produtos licenciados dessa versão foram lançados como revistas, gibis, fitas VHS, CDs, DVDs, álbuns de figurinha, bonecos, fantasias, materiais escolares, roupas, jogos e brinquedos com alta vendagem.

A ambientação desta fase do Sítio tem como cenários principais a chácara de Dona Benta, o Arraial dos Tucanos, o laboratório do Visconde e a gruta da Cuca. Para trazer verossimilhança à série, a cenografia do vilarejo de Arraial dos Tucanos buscava reproduzir as cidades do interior de São Paulo, onde Monteiro Lobato nasceu, com a presença de uma venda, áreas de mata e rio. Neste espaço habitam criaturas folclóricas como o Saci, a Iara e a Cuca.

Também contribuindo à verossimilhança, grande parte das gravações externas era feita num sítio real localizado na Ilha de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. Na mesma cidade, porém em outro imóvel, haviam sido gravadas as externas da versão de 1977 com direção de Geraldo Casé. Para aproximar a trama da contemporaneidade, nos ambientes foram incluídas interações com computadores, micro-ondas, carros e celulares.

Outros cenários, como a gruta da Cuca e aventuras em outros espaços foram montados nos estúdios da Renato Aragão Produções, em Vargem Grande. Nestas construções, percebe-se o grande uso do fator lúdico e da união entre cenários reais e virtuais como é possível identificar na gruta da Cuca. Neste local, encontramos diversos elementos que dialogam com o estereótipo de uma bruxa. Além de ser um ambiente sombrio, úmido, frio e nebuloso, tem a presença de caldeirão, poções e velas, geralmente utilizados em rituais mágicos. Pelo caldeirão, também ocorre à comunicação de Cuca com outras bruxas, em um efeito virtual.

Na história Viagem ao céu, fica explícito também uso de computação gráfica para a construção da representação e interação dos personagens com o espaço sideral. Este recurso é utilizado para emular o céu, estrelas, cometas, asteroides, satélites e um dragão pertencente a São Jorge. Em Reino das águas claras, são também usados efeitos de computação gráfica emulando ambientes subaquáticos para trazer a impressão ao telespectador que, apesar de os personagens humanos continuarem respirando e andando como em terra, os fatos transcorrem no fundo do mar.

A caracterização dos personagens desta versão se diferencia das anteriores. Principalmente, por a boneca Emília ser interpretada por uma criança, a atriz Isabelle Drummond. Com exceção do filme O Saci (1951), a boneca Emília havia sido interpretada por atrizes adultas, nas outras quatro versões para a TV. O figurino é composto um vestido de cores amarela e vermelha, seu cabelo segue os mesmos tons numa peruca feita de pano.

Dona Benta, interpretada por Nicete Bruno, segue o estereótipo de vovó, utilizando óculos, cabelos brancos em coque e roupas em tons pastéis, de tricô e croché. Já Tia Nastácia agora era vivida por uma atriz mais magra, Dhu Moraes. Porém, a personagem Nastácia era mais conhecida popularmente pela a imagem de uma mulher gorda, tanto pelas ilustrações dos livros como em outras adaptações para TV e cinema.

Sobre tia Nastácia é válido lembrar que, em entrevista a Silveira Peixoto, Monteiro Lobato contou que a personagem literária era inspirada em uma mulher magra, chamada Anastácia, que realmente existiu e trabalhava em sua casa, como cozinheira e babá dos filhos dele. Ela é descrita como uma negra alta, magra, de canelas e punhos finos.

Na série encontramos outros personagens negros como tio Barnabé, interpretado por João Acaiabe que tem seu figurino inspirado em capoeiristas e colete com motivos africanos. Saci, personagem de Isak Dahora, utiliza apenas um macacão e gorro vermelho, sendo utilizado dublê e efeitos visuais para aparecer na televisão com apenas uma perna.

Nesta temporada, eram também usados efeitos especiais de chroma key para que o Visconde de Sabugosa, parecesse ter mesmo o tamanho de um sabugo de milho. O sábio tinha vestes imitando um milho nas cores amarelo e verde, óculos, com uma cartola também verde e cabelos ruivos. Visconde era interpretado pelo ator Cândido Damm, que nesta versão, deu um padrão de voz mais grossa ao personagem.

Bonecos como Marquês de Rabicó, Conselheiro e Cuca eram fantasias operadas por controle remoto e posteriormente dublados. Sobre a última, a intenção da direção era que a aparência da Cuca não ficasse demasiadamente assustadora pela faixa etária a qual o programa se dirigia. Sendo assim, a personagem tinha um visual mais inofensivo, se assemelhando a construção do personagem Barney (Barney e seus amigos, 1992), com rosto e cauda de jacaré, e corpo de mulher, com um vestido e capa de bruxa.

Os primos Narizinho e Pedrinho, interpretados por Lara Rodrigues e César Cardadeiro, utilizam roupas comuns à crianças da idade da faixa de 8 anos de idade. O figurino varia conforme os episódios, porém alguns itens são marcantes como as faixas e tique-taques na cabeça de Narizinho e o estilingue de Pedrinho. Esta caracterização carrega uma rápida identificação com o telespectador.

Grande parte da trilha sonora da série era formada por regravações de canções compostas para a versão de 1977 e presentes nos discos Sítio do Picapau Amarelo (1977) e Sítio do Picapau Amarelo – Vol. 2 (1979) produzidos por Dori Caymmi, Guto Graça Melo e Max Pierre. As canções referiam-se aos personagens e cenários da série, exaltando suas características. Sendo assim, uniam a nostalgia da versão antiga com arranjos e cantores para a nova geração. Narizinho, composta por Ivan Lins e antes cantada por Lucinha Lins, foi regravada pela baiana Ivete Sangalo. O Tema da Cuca foi interpretada em tom heavy metal por Cássia Eller e sua banda. Pedrinho ganhou arranjos pop Jota Quest; Ploquet Pluft Nhoque reviveu eletronicamente nas mãos do grupo Pato Fu; e Rabicó ganhou uma sonoridade roqueira com Paulo Ricardo. Gilberto Gil permaneceu com a sua música-tema, Sítio do Picapau Amarelo, numa versão acústica que, curiosamente, havia sido gravada em 1994.

Carlinhos Brown, Zeca Pagodinho, Cidade Negra e Max Viana também estavam presentes nessa nova trilha do Sítio, ao lado de outros intérpretes da MPB convocados para criar músicas inéditas. Foi o caso de Lenine, que refez o tema do Visconde de Sabugosa, originalmente de João Bosco; e de Jorge Vercilo com sua canção Reino das Águas Claras.  A trilha foi lançada em dezembro de 2001 em um kit juntamente com a fita VHS com a história O Reino das Águas Claras.

Por se tratarem de canções temáticas, estas são executadas durante a série em cenas específicas com a presença do personagem em questão. Fora isso, são executados instrumentais que auxiliam a ambientação como, por exemplo, são executados rocks em clima sombrio da gruta da Cuca ou violas e instrumentais caipiras em stock-shots do Arraial dos Tucanos.

A fotografia da série, em geral, é naturalista e não explora grandes variações para produção de sentido na série. Em momentos pontuais, podemos perceber grosseiras alterações na imagem, sendo utilizadas para demarcar ambientes e sequencias fantasiosas nas aventuras vividas pela trupe. Por exemplo, em Reino das águas claras as cenas subaquáticas têm exacerbados os tons azuis numa forma de representar-se o fundo do mar. Também são notadas diferenças de fotografia em Viagem ao céu comparando-se o ambiente de Lua, em tons mais azulados e frios e de Marte com tons mais quentes.

Nos episódios analisados, a edição da série mantém uma construção linear. As histórias apesar de serem divididas em episódios, acontecem em apenas uma cronologia. Antes da vinheta com o título da história e o episódio do dia, ocorre um resumo das partes anteriores da história corrente, sempre narrado por um dos personagens.

A abertura da série mistura animação e atores reais. Embalada pela música homônima de Gilberto Gil, inicia-se com uma contagem regressiva cunhada por um pica-pau amarelo no tronco de uma árvore, após é refeita a mesma animação de título utilizada na versão de 1977 revelando-se um livro, o qual se abre e vemos os personagens reais interagindo em cenários animados. Este efeito busca representar a imersão do telespectador na obra de Lobato e reforçar o caráter lúdico e de imaginação presentes na produção.

Neste sentido a obra criada por Monteiro Lobato se mostra muito rica, ampliando o horizonte do público não só com seus personagens, mas também com intertextualidades. Por exemplo, em Viagem ao céu, encontramos personagens como São Jorge e seu dragão onde são exploradas suas histórias e questionados assuntos como a fé. Já em Memórias da Emília, o personagem clássico Peter Pan ingressa no sítio brasileiro com questões como amadurecimento e coragem, ampliando o horizonte do público de forma a estimular o pensamento de questões comuns ao mundo infantil.

A relevância da obra também se dá pela construção questionadora de Emília sobre a realidade e a sapiência de Visconde de Sabugosa sobre temas como história, geografia e ciências. Os dois protagonizam debates de ideia entre ciência e empirismo. Em Viagem ao céu, Visconde decide explorar o espaço para saber se realmente haviam chegado a lua com o pó de pirlimpimpim enquanto Emília decide fazer uma votação democrática (ou contagem de narizes) para decidir se o local em que estavam era ou não a Lua. Ambas atitudes podem, inclusive, dialogar com a promoção da conscientização política e social já que o primeiro exerce o papel de investigação e o outro de liderança.

Papéis adversos também podem ser identificados em Dona Benta e Tia Nastácia. As duas personagens adultas divergem em pontos de vista, já que a primeira é representada como grande estudiosa e conhecedora da ciência e a segunda como mulher de grande fé e crédula em mitos e folclores. Desta forma, na maioria dos temas confrontados pelos personagens, são demonstrados pontos de vista científicos por Dona Benta e empíricos por Tia Nastácia.

Se passando em um ambiente rural e desprovido de grande tecnologia, a série apresenta desafios aos personagens e busca despertar no público a curiosidade para resolvê-los. Também na história Viagem ao céu, na ausência de um telescópio para admirar os astros, os meninos decidem construir um próprio com gravetos, barbantes e canos.

A produção se mostra oportuna no que tange a perpetuação do universo ficcional de Monteiro Lobato, autor brasileiro que buscava retratar nos seus livros temas de interesse público de sua época como a questão do petróleo brasileiro na história O poço do Visconde. Neste caso, a história se adequa ao público infantil com apresentação de assuntos como a Geologia e conflitos capitais e ideológicos.

Tratando-se de histórias com criaturas fantásticas, são inúmeros os apelos à imaginação do telespectador. O pó de pirlimpimpim é o maior exemplo deste fato, já que, com ele, é possível viajar para qualquer mundo ou época. Diferentemente dos livros onde o pó era aspirado pelo nariz, nesta versão era jogado em cima das cabeças dos personagens assim como em Peter Pan. Na versão de 1977, o pó mágico havia sido transformado em uma palavra mágica, pela Censura Federal, para evitar comparações com a cocaína; deste modo, os moradores do Sítio apenas gritavam “pirlimpimpim” para viajarem de um lugar para outro.

A narrativa do Sítio do Picapau Amarelo contempla dois momentos: o cotidiano no sítio e conflitos com vilões locais como a Cuca, que tenta acabar com as crianças do Arraial, e o Saci que apronta travessuras com o tio Barnabé e tia Nastácia, e uma viagem fantástica que desvenda outros mundos e coloca os personagens em outras situações de perigo.

Segundo Cardoso (2001), os personagens de Monteiro Lobato possuem uma importância para o imaginário infanto-juvenil e popular análogo aos personagens de Walt Disney para os americanos. Pedrinho e Narizinho são crianças comuns de classe média, conscientes de valores morais e temas como respeito ao próximo e à natureza. Representam uma faixa de idade que está imersa no aprendizado no mundo, funcionando como elo de identificação junto ao telespectador infantil.

Personagens adultos, Dona Benta, a dona do Sítio e avô das crianças representa autoridade e sabedoria. Tia Nastácia, a cozinheira, incorpora a “ama de leite”, presente no imaginário brasileiro marcado pela escravidão. Por fim, Tio Barnabé é a representação do equilíbrio entre sabedoria e senso comum, trazendo também elementos da cultura africana para a narrativa.

De extrema importância para a obra, Emília instaura a dúvida e a curiosidade. Boneca que fala, assim como Pinóquio, é feita de pano, mas coberta de razão. A personagem representa o princípio da realidade pelo viés de uma imaginação criadora. Ao misturar o imaginário com o carne-e-osso cria-se um universo paralelo onde a linha dimensional entre o sonho e o despertar é tênue.

Os personagens representados por bonecos permitiram uma experimentação nas narrativas de Lobato. Com efeitos de computação gráfica, o sábio Visconde de Sabugosa, tinha dimensão de um sabugo de milho, interagindo com os personagens em tamanho reduzido e possibilitando a inserção destes entre locais pequenos. Já bonecos operados por controle remoto como a Cuca, Rabicó e Conselheiro foram totalmente remodelados para se tornarem antropomórficos, isto é, bípedes com características humanas, facilitando a produção do programa. Na literatura, estes personagens se referiam a animais de fato, se tornando uma solução original e diferente da versão de 1977 na qual a fantasia era em formato de bola desenhada com representação de suíno ou adicionado chifre de rinoceronte.

A comunicação com o público se deu por um site oficial criado pela TV Globo no portal Globo.com. Na página, produzida em Flash, era possível encontrar um resumo dos episódios, a história de Monteiro Lobato, sinopse do Sítio do Picapau Amarelo, brindes como planos de fundo e desenhos para imprimir, jogos como quebra-cabeça, jogo da memória, troca de roupas de boneca, dentre outros.

Como solicitação da participação ativa do público, havia uma seção chamada “Mural dos amiguinhos” onde telespectadores cadastrados no portal da Globo.com poderiam deixar recados relacionados ao programa para serem publicados na página.

Por Léo Lima

 

Ficha técnica:

  • Baseado na obra de: Monteiro Lobato
  • Direção-geral: Márcio Trigo
  • Núcleo: Roberto Talma (2001)
  • Período de exibição: 12/10/2001 – 07/12/2007
  • Horário: 11h30/10h10
  • Periodicidade: segunda a sexta

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